domingo, 16 de março de 2008

até tu, Chico

Em entrevista histórica à Revista Playboy (publicada em fevereiro de 1979), Chico Buarque revela seu lado mais fraco e fala sobre a ausência de religião -diz ser materialista-, sua autopunição com o trabalho que dá certo e o medo de fazer análise, entender os mistérios da vida e "secar" a criatividade. Veja alguns trechos:

Playboy - Mas a gente sabe que a liquidação racional da religião não elimina necessariamente alguns mecanismos religiosos profundos - a noção de pecado, o sentimento de culpa, por exemplo. Você não se pilha, às vezes, numa autopunição?
Chico [ri] - Minha mulher acha que sim, que o tempo todo. [Pausa] Olha, uma entrevista desse tipo fica um pouco delicada para mim, porque eu me recuso a fazer análise, e está parecendo uma espécie de análise. [Pausa] Agora, segundo quem conhece mais o negócio, eu tenho uma compulsão assim autopunitiva. Pode ser verdade. Eu não quero entrar muito a fundo nisso, não quero pensar nisso. [Pausa] Fatos concretos: o disco Meus Caros Amigos de repente vendeu 500 mil. Cria um problema sério dentro de mim, me faz ficar um pouco agressivo, entende? Me transtorna um pouco no sentido mesmo de autoflagelação, de negação.
Playboy - Pode explicar melhor?
Chico - Ficar brigando contra o sucesso mesmo, entende? E sentir uma certa culpa da coisa bem-sucedida. Uma vontade secreta de querer destruir isso, de querer minar. Isso é uma opinião que não é minha, porque eu não tenho condições, não quero, não penso muito nisso. Acho que talvez tenha alguma coisa a ver. Quer dizer, depois desse disco não quis gravar outro no ano seguinte, e ano passado gravei com uma certa dificuldade. Aconteceu antes com Construção, que fez um sucesso muito grande para a época: eu passei anos sem conseguir gravar um disco meu; fiquei fazendo disco de show, disco de filme, disco com outros compositores. Isso é conversa que estou retransmitindo, de gente analisada e gente que pensa em termos analíticos.
Playboy - Você nunca fez análise?
Chico - Eu não faço, não fiz, não quero fazer e fujo um pouco disso.
Playboy - Por quê?
Chico - Geralmente quando a gente entra muito nesse negócio, fica com receio de desvendar os mistérios.
Playboy - De sua criação?
Chico - Exatamente. Precisamente disso. Eu não sei por que faço música. É terrível quando pinta uma fase de angústia, as fases em que acho que sequei. Aí realmente dá vontade de dar o braço a torcer e tratar da cabeça pra ficar legal, pra viver legal. Mas para mim parece que viver legal se opõe a criar. Então, é uma opção. Não digo que seja definitiva - pode ser que encha o saco e eu diga: olha, eu quero que se dane, não quero fazer mais nada, se for para não fazer mais nada eu pelo menos quero ficar tranqüilo, quero viver tranqüilo.
Playboy - A criação é, portanto, um processo que você não domina?
Chico - Não domino, e tenho medo: se eu dominar, acaba. Parece que é isso. [Pausa]. Olha, isso que eu vou dizer é uma colocação para uso, talvez, [ri] de algum psicanalista: eu não lembro de ter tido uma fase tão tranqüila em minha vida profissional como quando morei na Itália. Foi quando despintou o sucesso, lá na Itália eu não era ninguém, evidentemente. Cheguei lá e depois de dois meses eu era nada. Aqui no Brasil, eu era considerado nada, cocô. Eu me chateava com isso, claro. Lia entrevistas em que se davam notas a cantores e cantoras. Chico Buarque: zero. Isso me chateava, mas no fundo eu estava tranqüilo: ah, bom, então é assim? Então não te dão obrigação de ter nota dez, já estou com a nota zero... Tudo o que fizer é lucro, não tenho nada a perder. Enquanto que nesse negócio de "tudo bem", "maravilha", o peso é muito maior.
Playboy - Uma situação absurda: você continua criando, mas de repente não faz sucesso nenhum.
Chico - No fundo, no fundo, se eu tivesse certeza de estar fazendo uma coisa muito boa, o fato de não fazer sucesso não me incomodaria. O que acontece é que, dentro desse trabalho que eu estou desenvolvendo, a falta de resposta do público é sintomática. Eu estou fazendo música popular, ou teatro que se pretende popular, não estou fazendo nada desligado disso. Nesse sentido não sou Hermeto Paschoal, não estou fazendo uma experiência de vanguarda dentro da música, nem dentro do teatro. Então, se eu não tiver uma resposta satisfatória do público ouvinte, do leitor, do espectador eu vou ficar desconfiado de que está errado.

Fonte: Site Oficial do Chico.

Eu achei genial essa relação que ele fez, do sentimento de não entender os mistérios e viver angustiado e a necessidade de manter isso intacto para que o processo criativo continue. E fiquei pensando que talvez seja por isso que muitos gênios (da literatura, música, pintura, etc) morram sem ser entendidos e na mais profunda solidão, cercados de vazios, carências e questionamentos vários. E, claro, em uma escala muito maior que nós, os simples mortais. Imagina como devia ser difícil ser uma Clarice Lispector, um Caio Fernando Abreu, um Fernando Pessoa. Eu, hein. Prefiro me recolher à minha insignificância e às minhas neuras, que não são poucas. rs

2 comentários:

Cacá BH disse...

camila, falou e disse... deve ser muito complicado para essas grandes figuras atuais viverem sua própria vida... por isso prefiro ficar no anonimato também.....
hehehehe
beijosss

disse...

Adorei a entrevista. E quanto ao vazio, não esqueça que "um copo vazio está cheio de ar". :)

Menina, eu nunca conheci um gênio normal. Até pq se ele for normal, o q o torna gênio?

Bjs sumidos.