quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

sobre a vida que não se vive.


CANÇÃO

Viver não dói. O que dói 
é a vida que se não vive. 
Tanto mais bela sonhada, 
quanto mais triste perdida. 

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora. 

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez, 
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos. 

Viver não dói. O que dói, 
ferindo fundo, ferindo, 
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido. 

Que tudo o mais é perdido. 

Emílio Moura IN Itinerário Poético – Poemas Reunidos, Editora UFMG, 2a. ed., Belo Horizonte, 2012

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

just a little silence...

Renuncio às palavras
e às explicações.
Ando pelos contornos,
onde todos os significados
são sutis, são mortais.

[Lya Luft]


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O amor, sempre o amor,

Óleo sobre tela Lovers por Kurt van Wagner

O amor, sempre o amor, a palpitar-lhe lá dentro; o amor, sempre o amor, a cobrir, com as suas malhas, 
a dor: são irmãos de um mesmo pai (o coração), irmãos que mesmo dando-se bem (quantas vezes o amor e a dor não se encontram?), acabaram por escolher caminhos de vida bem diversos, ideologias antitéticas – o amor é marcadamente de esquerda dado a liberdades, a anarquias sem explicação); 
dor é conservadora, de direita (com ela não há fugas às obrigações).

Pedro Chagas Freitas in "GOTAS DE DOR"




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Resposta

Tentar deixar a pergunta dormir um pouco.
Pode ser a melhor maneira de abrir espaço para a resposta acordar.

Ana Jácomo



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Procurado.... rs


"A verdade é que não há nada de tão cruel como um amor perfeito. Passamos vidas inteiras a arranjar suspeitos, a confrontar testemunhas. Toda a gente sabe que ele aconteceu, mas ninguém o viu. Ninguém sabe descrever-lhe o rosto. Ataca sobretudo em horas ou pessoas de plena distração, à revelia dessa confortável invenção humana a que chamamos razão."

Inês Pedrosa


domingo, 18 de novembro de 2012

ambiguidade e mutação

“Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambiguidade e mutação, este silêncio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.”

Lya Luft

uma leve desordem na alma...


Bem assim: 

"Resumindo
digamos que oscilamos
entre alegria e tristeza
quase como dizer
entre o céu e a terra
ainda que o céu de agora e o de sempre
se ausente sem aviso
as ideias vão se tornando sólidas
sensações primárias
palavras ainda em rascunho
corações que batem como máquinas
serão nossos ou de outros?
este choro de inverno não é igual
ao suor do verão
a dor é um preço / não sabemos
o custo inalcançável da sabedoria
pensamos e pensamos duramente
e uma paixão estranha nos invade
cada vez mais tenaz
mas mais triste
resumindo
não somos o que fomos
nem menos do que fomos
temos uma desordem na alma
mas vale a pena sustentá-la
com as mãos / os olhos / a memória
tentemos pelo menos nos enganar
como se o bom amor
fosse a vida"

(Mario Benedetti)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Construção


Quem não conhece o trabalho do poeta e escritor Fabricio Carpinejar, está em tempo. Abro esta crônica com uma citação extraída da ótima entrevista que ele deu para a revista Joyce Pascowitch: “O início da paixão é estratosférico, as pessoas não param quietas exibindo tudo que podem fazer. Depois passam a confessar o que realmente querem. A paixão é mentir tudo o que você não é. O amor é começar a dizer a verdade”.

É mais ou menos isso. No começo, a sedução é despudorada, inclui, não diria mentiras, mas um esforço de conquista, uma demonstração quase acrobática de entusiasmo, necessidade de estar sempre junto, de falarem-se várias vezes por dia, de transar dia sim, outro também. A paixão nos aparta da realidade, é um período em que criamos um universo paralelo, é uma festa a dois em que, lógico, há sustos, brigas, desacordos, mas tudo na tentativa de se preparar para algo muito maior. O amor.

É aí que a cobra fuma. A paixão é para todos, o amor é para poucos.

Paixão é estágio, amor é profissionalização. Paixão é para ser sentida; o amor, além de ser sentido, precisa ser pensado. Por isso tem menos prestígio que a paixão, pois parece burocrático, um sentimento adulto demais, e quem quer deixar de ser adolescente?

A paixão não dura, só o amor pode ser eterno. Claro que alguns casais conseguem atingir o sublime – amarem-se apaixonadamente a vida inteira, sem distinção das duas “eras” sentimentais. Mas, para a maioria, chega o momento em que o êxtase dá lugar a uma relação mais calma, menos tórrida, quando as fantasias são substituídas pela realidade: afinal, o que se construiu durante aquele frenesi do início? Uma estrutura sólida ou um castelo de areia?

Quando a paixão e o sexo perdem a intensidade é que aparecem os outros pilares que sustentam a história – caso eles existam. O que alicerça de fato um relacionamento são as afinidades (não podem ser raras), as visões de mundo (não podem ser radicalmente opostas), a cumplicidade (o entendimento tem que ser quase telepático), a parceria (dois solitários não formam um casal), a alegria do compartilhamento (um não pode ser o inferno do outro), a admiração mútua (críticas não podem ser mais frequentes que elogios), e principalmente, a amizade (sem boas conversas, não há futuro). Compatibilidade plena é delírio, não existe, mas o amor requer ao menos uns 65% de consistência, senão o castelo vem abaixo.

O grande desafio dos casais é quando começa a migração do namoro para algo mais perene, que não precisa ser oficializado ou ter a obrigação de durar para sempre, mas que já não se permite ser frágil. Claro que todos querem se apaixonar, não há momento da vida mais vibrante. Mas que as “mentirinhas” sedutoras lá do começo tenham a sorte de evoluir até se transformarem em verdades inabaláveis.

(Martha Medeiros)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A vida - fora os erros de revisão.

Achei bonito: 

"(...) O amor - fora do alcance da razão.
(...) A vida - fora o que não coube.
(...) O amor - fora de si.
(...) A vida - fora de ordem.
(...) O amor - do lado de fora
(...) O amor - fora o perigo duma recaída.
(...) A vida - for o que der e vier.
(...) O amor - fora o que passou despercebido.
(...) A vida - fora o que a gente esqueceu
A morte - fora de cogitação.
O amor - fora o que nunca se diz a ninguém.
(...) O amor - fora as noites passadas em claro.
(...) O amor - fora o trabalho que dá.
(...) A vida - fora os erros de revisão.
(...) A vida - fora certas crises de neurastenia.
(...) O amor - fora o que ela/ele não disse.
(...) A vida - fora o que vem nas entrelinhas.
O amor - fora o que se perdeu.
A vida - fora o tempo que se passa dormindo.
O amor - fora o tempo que se passa dormindo.
(...) A vida - fora os emolumentos.
O amor - fora algum reajuste posterior.
(...) O amor - nove foras nada.
(...) O amor - fora o que aconteceu antes."

(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: A vida, a morte, o amor, o dinheiro. Ed. Civilização Brasileira, p. 237-238)

Fonte: Blog Vem Cá Luísa

DESEJO


Queria ser essa noite que te envolve; e 
cobrir-te com o peso obscuro dos braços 
que não se vêem. Um murmúrio 
desceria de uma vegetação de palavras, 
enrolando-se nos teus cabelos como 
secretas folhas de hera num horizonte 
de pálpebras. Deixarias que te olhasse 
o fundo dos olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos 
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

Nuno Júdice


domingo, 28 de outubro de 2012

...crime passional...

SILVESTRE E O IDIOMA

Silvestre quer saber

porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebaptizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.


MIA COUTO, in IDADES CIDADES DIVINDADES (Caminho, 2007)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Des-vão


E lá no fundo
Do meu mundo
Que só eu me dou
Que só eu sei
Tem você

Correndo por fora
Meio noite
Meio sol
e bossa nova
nesse absurdo-lento
descompasso das horas

profusão de cores
frescores matinais
amores tardios
uma paixão que aflora

todos os sentidos num só vão
toda espera em minha mão
e nada me cabe

não sei se sim
nem se não...
quem sabe?

AnaCris 

Poeminha lindo da poeta Ana Cristina Martins. Gostei muito! 

assim assim :)




"Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto também".

Guimarães Rosa


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Respira...


‎"Respira o sabor de um beijo, o toque de um afago, o som de um arfar. Respira a mão de fogo de quem te ama, o suor em êxtase de quem te chama. E o abraço que não passa, e as palavras que te embraçam, e os olhares que te apertam. Respira – para saberes que vale a pena continuar."

Pedro Chagas Freitas in "EU SOU DEUS"

kiss me


‎"A vida é tão bonita
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se
uma necessidade cósmica nos protege".

(Adélia Prado)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sobre o arrepio





O arrepio é quando, 
por serem tão leves,

seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros: 

soerguer uma flor.


Rita Apoena


domingo, 16 de setembro de 2012

Da noite

II. 

Que canto há de cantar o que perdura? 
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

Hilda Hilst IN Obra poética reunida (1950 - 1996)

Livro completo disponível para leitura aqui.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

sobre o olhar (parte 1)

“— E você, por que desvia o olhar?
(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)
— Ah. Porque eu sou tímida.”

Rita Apoena

(Retirado do Blog da Dri, leitura obrigatória sempre) 

sobre o olhar (parte 2)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Viver não tem cura



Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura.

[Paulo Leminski]




terça-feira, 21 de agosto de 2012

um céu líquido por detrás dos seus ombros


Uma mulher

Graça Pires

Um resto de Agosto. 

Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.

Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.

Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.

Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

....


[…]"É impossível ver o próprio reflexo em águas movimentadas,
isso só é possível em águas paradas."[…]

Comecei a pensar em quanto tempo da minha vida eu gasto me debatendo de um lado para o outro como um peixão procurando o ar ou desvencilhando-me de alguma preocupação desconfortável, ou então saltitando alegremente em direção de mais prazer ainda.

E me perguntei se poderia ser útil para mim (e para aqueles que carregam o fardo de me amar) se eu conseguisse aprender a ficar parada e suportar um pouco mais, sem me deixar sempre arrastar pela estrada esburacada das circunstâncias.

[Elizabeth Gilbert In: Comer, Rezar e Amar] 


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO

António Ramos Rosa


A nudez da palavra que te despe,
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.

domingo, 29 de julho de 2012

sobre vontades e ansiedades...

Achei perfeito, a minha cara, nem mais, nem menos: 


"De vez em quando me perco dentro de mim. É engraçado, mas fico contando coisas para meus botões. Listando tudo que quero fazer até o fim da vida. É tanta coisa que acho que não vai dar tempo. Vou torcer que dê. Porque a vontade de fazer é imensa. E intensa. Deve ser por isso que ando mais quieta, mais na minha, escondida em um cantinho de mim. Fico querendo guardar as coisas para não deixar escapar nada entre os dedos. É uma vontade louca de fazer. Ando escondida, eu sei. Vivendo por dentro e por fora. Às vezes aos trancos e barrancos. Mas acho que a vida é isso mesmo, um dia é bom e o outro é uma porcaria. Não dá pra ser feliz o tempo todo. Por sinal, desconfio de felicidades instantâneas e constantes. Soa meio falso. Gente de carne e osso é alegre e triste. É inconstante. Porque a vida é montanha-russa. E eu adoro andar nela. Por isso vivo sempre na fila do parque."

Clarissa Correa

sexta-feira, 27 de julho de 2012

te devorar por dentro

Eis que este texto lindo chegou até mim em um dos momentos mais tensos, onde ele poderia ter sido postado aqui, mas por algum motivo não o fiz. Como é lindo, achei que merece ser postado, mesmo fora do contexto atual, menos tenso e mais doce, leve e feliz: 


"Quantas coisas eu perderia para estar na sua frente agora? Exatamente agora. Não há antes, não há futuros previstos. Eu só queria esse segundo de toda a eternidade que existe, só para te olhar firme e doce, te desarmar sem meus truques, sem gestos brutos, saber me tatuar por todos os teus pensamentos e te devorar por dentro sem mostrar tudo que posso. Como eu queria ser dona das horas que nos restam para mudar todo o destino. Embora seja tão injusto, que chances você teria preso no meu olhar por um milésimo de segundo?"


Cáh Morandi

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eu e meus mitos

Eu amei o texto autobiográfico escrito pela Marla de Queiroz (que conheci outro dia por alguém très especial). Me identifiquei tanto que resolvi reproduzir aqui (tirei algumas pequenas partes que eram muito específicas do momento dela):


        "Não encontrei o mar revolto em Pessoa, mas vi em Hilda Hilst seu jeito destemido de ser tão obscena e obcecada. Não fui moça casadoira como Adélia Prado, eu me inseri na babilônia da lascívia de Anais Nin, entre a loucura, a delícia e a razão fantasiada. Eu quis salvar a vida de Ana C. que virou passarinho em Manoel de Barros. Estive com Clarice, Caio e Mia Couto, mas quis que Guimarães me amasse qual neblina Diadorim: faltou meu Riobaldo, um rio nosso, terra seca e a boca molhada de neologismos pra mulher amada.
         (Fui quase injusta em desejar que as coisas tivessem sempre um real tamanho, que as fomes fossem saciadas sempre pelo melhor gosto, que a chuva só desabasse em tempos de matar a sede.) Tranquei meus dias ruins nas cores de um Miró aceso.
         (...) Se quase sucumbi num poço de tristeza, me reergo até hoje, constante e amiúde, fazendo o meu melhor_ fiz o maior que pude. Mas não me preservei: ainda sou lanhada pelos galhos de matas fechadas que são o meu altar, minha estrada.
        Engulo o amargo da saudade sem fazer careta, absorvo o azedo da rejeição sem me achar menor, abro os braços para a escuridão contando estrelas, gasto cada gota de suor e sangue nas minhas entregas. E não economizo gargalhadas, mas pago o preço alto do inconveniente de viver no mundo paralelo e metafísico onde vivem as palavras.
       Estive em muitas páginas. Grifei muitos parágrafos. Sorvi tantas inglórias e orgasmos e vitórias. (...) Eu tenho um jeito enorme de amar pra sempre, mas sou desajeitada.
Eu tenho um jeito imenso de ser comovente, mas sempre concluo as histórias na hora errada."


Marla de Queiroz
(texto publicado em sua página no facebook)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

reticências tão demoradas que as filas chegavam a deter-se um pouco


(...) Depois os dois se abraçaram e se deram beijos nas duas faces e como duas pessoas que não se vêem há muito tempo atropelaram perguntas como: por onde é que tu anda, criatura, ou exclamações como: mas tu não mudou nada, ou reticências tão demoradas que as filas chegavam a deter-se um pouco, as pessoas reclamando e uma hesitação entre mergulhar nas gentes entre um beijo e um me telefona qualquer dia e ficar ali e convidar para qualquer coisa, mas um medo que doesse remexer naquilo, e tão mais fácil simplesmente escapar que chegou a dar dois passos. Ou três. 


[Caio Fernando Abreu]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Chuva sobre o rosto


SEM TI


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.


Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


EUGÉNIO DE ANDRADE, in CHUVA SOBRE O ROSTO, (Modo de Ler/Ed. Afrontamento, 2009)




terça-feira, 10 de julho de 2012

sobre madrugadas e tristezas

Estou articulando ideias e pensamentos para postar aqui. Quero e preciso liberar algumas cousas. Assim, com U mesmo, como eram as cousas de Pessoa. Duras. 


Mas, enquanto isso, eis que me chega às mãos este texto, perfeitinho para este momento: 


"às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].


foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.


se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.


(...) há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton. vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção... Uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura."


Ondjaki, poeta, nasceu em Luanda, em 1977. É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco, polaco.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Leminski



Eu tão isósceles/ Você ângulo/ Hipóteses sobre o meu tesão/ Teses Sínteses/ Antíteses/
 Vê bem onde pises/ Pode ser meu coração. 

(Paulo Leminski)




terça-feira, 3 de julho de 2012

para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto...

O amor acaba
Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Amor inventado


que foi que me fez inventar o amor 
e imaginar-te objecto de beijos?
um passo ao acaso, terá sido?
ou o peito exibido entre ombros?
um arco de olho, um desamparo?
um abandono ao verso medonho?
um gesto de nuvem na curva do dia?
que sei eu, que queres que te diga?
eu já só domino o foro do sonho
tu estás muito longe e eu deste lado
bebeste do lago a maior poesia
e eu do poema o amor inventado.


Poesia publicada por João Miguel Henriques em seu blog, Quartos Escuros 



terça-feira, 19 de junho de 2012

O Amor Eterno

E agora que as mãos da incrédula 
rapariga te empurram para a saída, 
onde irá chover, de acordo com 
a cor do céu, não resistas. Na rua, 
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
húmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.


Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"

segunda-feira, 11 de junho de 2012

caminhos...



"E então, quando se abrirem vários caminhos e não souber qual escolher, não tome um qualquer, tenha paciência e espere. Respire com a confiante profundidade com que respirou no dia em que veio ao mundo, não deixe que coisa alguma a distraia, espere e continue esperando. Fique parada, em silêncio, e ouça o seu coração. Quando enfim ele falar, levante-se e vá aonde ele a quiser levar."


Susanna Tamaro, in 'Vai aonde te leva o coração'



segunda-feira, 4 de junho de 2012

as sombras e as dúvidas a ocuparem tudo.



“Há um tempo para chegar e outro para partir. Quando eu cheguei, já ela tinha partido. Hoje recordo o seu sorriso como o vento entre as árvores, todos os segredos partilhados, as ternas palavras, e uma visão toma conta de mim. Demasiado tarde para encontrar um começo. Para reconhecer o que foi, é preciso ter sido. As sombras a ocuparem tudo. Eu queria ver pelos teus olhos. Sentir com o teu coração. Morrer por ti.”


Pedro Paixão IN Sombras do amor, O mundo é tudo o que acontece

segunda-feira, 28 de maio de 2012

aos tropeços

Líria Porto

fascinados por sonhos intangíveis
avaliações equivocadas
ultrapassamos os limites da lucidez
descuidamo-nos dos laços
dos compromissos
enveredamo-nos por aí
catadores mendigos de nós mesmos



[Estou gostando mais e mais dos versos de Líria, que conheci pela sempre doce Jenifer]

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A questão

Como decidir do desejo?
Algum padrão diz do que
e de quanto vive?


Ele vive do que deseja?
É uma necessidade?
Subsiste no fundo do tempo? 


Faz-se num minuto? Morre 
no outro? Perdura uma existência inteira?
O desejo que não desejamos,


refreá-lo como? Respiramos.
Há interromper-lhe o passo?
O desejo nos ouve? 


É cego? É doido? O desejo vê 
mais que tudo? São os nossos 
os seus olhos? Se os fechamos, 


ele finda? Quem pôs o desejo em nós?
Onde está posto? E onde não?
Penetra o sonho, o trabalho, infiltra 


nos livros, no óbvio, nos óculos, 
na cervical, na segunda-feira e os versos 
não sabem outro tema. 


Há quem não deseje? 
Tudo o que vive deseja? 
Faça-se o exercício: não desejar, 


por um mês, uma semana,
um dia. O desejo fabrica-se
de nenhum aval? Ele não teme?


Não receia o sal à face da razão?
Não teme a dor, decerto, que dela 
parece, por vezes, primo-irmão. 


E perguntamos, perplexos. O desejo 
é uma forma oblíqua de alegria? Brinca 
conosco? Mas, brincarmos com ele, 


ai de nós, é de seus truques 
o mais fatal. Morremos de desejo? 
Com ele removemos pedras? 


Por ele removemos montanhas? 
Pode o desejo mover o não? 
(O não: esta seta o mata? 


Ou esta farpa fomenta o que nele nos ultrapassa 
e que, sem nome nem fim, não desistirá 
senão quando tudo morto em nós?)


Química tão secreta,
não vale a pena qualquer pesquisa, 
uma pluma, este poema.

EUCANAÃ FERRAZ
in Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 
in Rua do mundo. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

das tentativas

"Entrevistadora:
É interessante que o senhor tenha mencionado luz e escuridão, pois os personagens de seus livros com frequência se apegam a ilusões e ao autoengano.


Javier Marías:
As ilusões são importantes. Aquilo que se prevê ou de que se lembra pode ser tão importante quanto o que realmente acontece. Tendemos, em geral, a contar a própria história mencionando apenas as coisas positivas, mas também há uma parte negativa da vida que nos forma: o que não fizemos, aquilo a que renunciamos, o que não ousamos fazer, o que desacreditamos e descartamos, aquilo com que sonhamos, o que esperamos, o que deixamos de lado, o que não chegamos a estudar mas pensamos que estudaríamos, o emprego que não conseguimos, o emprego que não nos deram, ainda que o quiséssemos. As coisas que não somos são parte da gente também. Evitamos falar delas, até para nós mesmos, como se não contassem. Em meus romances, quero que contem."

(As entrevistas da Paris Review Volume 1. Ed. Companhia das Letras, p. 449-450)



Fonte: Blog Vem Cá Luisa 

Canção da Alma Caiada


Aprendi desde criança 
Que é melhor me calar 
E dançar conforme a dança 
Do que jamais ousar


Mas às vezes pressinto 
Que não me enquadro na lei: 
Minto sobre o que sinto 
E esqueço tudo o que sei.


Só comigo ouso lutar, 
Sem me poder vencer: 
Tento afogar no mar 
O fogo em que quero arder.


De dia caio minh'alma 
Só à noite caio em mim 
por isso me falta calma 
e vivo inquieto assim. 


(Antonio Cícero)


Nota: Esta é a primeira letra que Marina musicou, feita por Cícero nos USA, "Canção da Alma Caiada". Maria Bethania chegou a gravar a música em 77, mas foi censurada. Anos depois, Zizi Possi fez nova gravação. Embora Marina já tenha cantado essa canção em shows, nunca gravou-a em disco. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

e que nunca abdique de ser o que tenta.

Achei lindo e muito apropriado para este momento.

A ORAÇÃO DE CHAGAS:

Que nunca as pernas se cansem de dançar, pois é essa a única maneira de recomeçar.
Que nunca as pernas se cansem de tropeçar, pois é essa a única maneira de caminhar.
Que eu seja o que cai mas nunca descai, que eu seja o que desfruta e nunca o que aguenta – e que nunca abdique de ser o que tenta. 
Que todos os homens aprendam a andar – e que corram e sonhem a cada saltar. 
E que não haja pernas pequenas de mais, e que não haja no mundo dois homens iguais – e que se faça um começo de todos os finais.
E que o passo por dar continue a nascer, e que o caminho se faça pelo mero querer – e que eu ouse o perigo de insistir em viver.
E que nada termine sem o ai do orgasmo, e que nada se dobre sob o peso do pranto – e que um simples abraço me encha de tanto. 
Que nunca as pernas se cansem de tropeçar, pois é essa a única maneira de caminhar.
Que nunca as pernas se cansem de dançar, pois é essa a única maneira de recomeçar.

PEDRO CHAGAS FREITAS



...


Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.  
Drummond

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.



(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

e a mente cansada não diz o que sente.

SÃO GONÇALVES, in COMO UM RIO, COMME UN FLEUVE, livro de poesia bilingue (Pastelaria Studios, a publicar em 12 /05/2012)


De tanto que há para escrever a palavra esquiva-se pela esquina do papel, a mente cansada não diz o que sente, esconde-se por detrás de uma nuvem incerta. A boca cala a emoção e os pensamentos vagueiam em contraluz. São silêncios mascarados de sorrisos, é a mente que grita e nada diz.


Por hoje já chega, insiste o pensamento cansado na procura das palavras certas… Mas o espírito aprisionado por sentimentos incertos, grita libertação e o dedos pousados no teclado tocam a sinfonia das palavras que me dita teimosamente o coração… São raros estes momentos, é a palavra sentida em plena emoção. E a noite vai passando neste frenesim que é a passagem do tempo e a alma gritando, a tristeza soltando emoções escondidas, e o tempo que passa, e a palavra que toma forma e os dedos soletrando a raiva escondida em fragmentos de ilusão.


E a frase que nasce, os sons das palavras escritas embalando a esperança renascida, o tempo que pára por um momento nas palmas da minha mão. E as nuvens escuras fugindo para longe formando leitos de espuma branca-libertação.


***
De tant qu'il reste à écrire le mot s’esquive par le coin du papier. L’esprit fatigué ne dit pas ce qu’il ressent, il se cache derrière un nuage incertain. La bouche tait les émotions et les pensées qui errent en contre-jour. Ce sont des silences déguisés en sourires, c’est l’esprit qui crie et ne dit rien.


Maintenant, cela suffit, insiste la pensée, fatiguée par la recherche des mots justes... Mais l'esprit apprivoisé par des sentiments incertains, crie libération et les doigts posés sur le clavier jouent la symphonie des mots que le cœur dicte, obstinément… Ils sont rares ces instants - c’est le mot en plein émoi. Et la nuit s’écoule dans cette frénésie qui est le passage du temps, et l’âme qui hurle la tristesse, et les émotions cachées qui se délient et le temps qui passe et le mot qui prend forme et les doigts épelant la colère cachée dans des fragments d'illusion.


Et la phrase qui naît, les sons des mots écrits berçant l'espoir réincarné: le temps s’arrête un instant dans les paumes de ma main. Et les nuages sombres s’en vont au loin dessinant des lits d’écume blanche - libération.

domingo, 6 de maio de 2012

exatamente assim...

Apaixonite Aguda
Itamar Assumpção


Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo

Canção de amor

Rainer Maria Rilke 


Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?

sábado, 5 de maio de 2012

De-lembrares


E no telefone a sua voz chega ainda acordando, tanta manhã que faz. Falamos em projetos, presentes, viagens, tanta coisa. Depois disso, dormi sono demorado, daqueles que a gente pensa e lembra e quer, mas o danado do olho não fecha. A cabeça teima em futurar acontecimentos que ainda não aconteceram, sentimentos e falas, e já eu fico atordoada de vontades, trocando de travesseiros a todo tempo. Imagino casa sem parede, mundo sem distância, tempo sem calendário, e o sono me acorda: deixa de pensar besteira, menina. Tenho dessas coisas desde pequena, de querer andar pelas paredes e sentar no ventilador de teto – ainda nessa época a gravidade não tinha força nenhuma –, mas o doutor me olhava de rabo de olho. Mamãe não gosta de filha dela pensando pensamento mal pensado, mas agora não tenho mais, prometo, passou. Mas por que o sol e a lua não aparecem juntos? Por que não posso ficar acordada? Ah, essas coisas de-lembrar. Só que já faz noite funda e tenho medo de susto, então apago a luz e fecho os olhos bem fechados. Agora não penso mais, palavra minha que fico bem quieta. Quieta feito planta. Quieta feito cômoda. Quieta feito coisa que não barulha.


Alice Sant'Anna, que tem apenas (!!!) 20 e poucos anos e poetisa como poucos no blog pra não ficar na gaveta

terça-feira, 24 de abril de 2012

Biografia


Nasci de um abismo
e nele me equilibro.
Tudo desmedido.
Tudo voraz.
Tudo a boca de uma grande loba
[estrela em pêlo de caranguejeira].
Tudo essa teia
de saliva e luz negra.
Tudo esse uivo de danceteria
viaturas
bairros sujos.
Tudo um delay de mim
multiplicado por mim.
Tudo esse tiro
[um ou dois estampidos?]
esse giro
essa queda
esse fim.

(MICHELINY VERUNSCHK)