terça-feira, 18 de agosto de 2009

batidas desordenadas do coração

Bonito isso aqui:

"Estava alegre nesse dia, bonita também. um pouco de febre
também. por que esse romantismo: um pouco de febre? mas
a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força
e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração.
quando a brisa de verão batia no seu corpo, todo ele estremecia
de frio e calor. e então ela pensava muito rapidamente, sem
poder parar de inventar. é porque estou muita nova ainda
e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto - refletia.
pensar agora, por exemplo, em regatos louros. exatamente
porque não existem regatos louros, compreende? assim se foge.
Ah, piedade é o que sinto então. piedade é minha forma de amor,
de ódio, de comunicação. é o que me sustenta contra o mundo,
assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo.
piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba.
mas estou cansada, apesar da minha alegria de hoje,
alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha
de verão. estou cansada, agora agudamente.
vamos chorar juntos, baixinho. por ter sofrido e continuar
tão docemente. a dor cansada numa lágrima simplificada.
mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, deus.
durmamos de mãos dadas. o mundo rola e em alguma parte
há coisas [...] flutuando sobre o mar, eis o sono.
por que ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem
do fogão que se destampa?"

Clarice Lispector

4 comentários:

Ana Baldner disse...

Clarisse como sempre maravilhosa... adorei lembrar dela... bjs

renata disse...

muito lindo mesmo.. ;-)
beijos!

disse...

Ah, a Clarice... ela sempre merece ser citada.

Ótimo final de semana para vc, menina.

Bjs.

Poeminha disse...

Tudo em teu blog é cativante, assim são as coisas simples e belas! Que prazer passear por aqui.
Voltarei sempre que puder, e colherei lindezas em teu jardim tão generoso...
Abraços sulinos
Claudia Félix