segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A vida - fora os erros de revisão.

Achei bonito: 

"(...) O amor - fora do alcance da razão.
(...) A vida - fora o que não coube.
(...) O amor - fora de si.
(...) A vida - fora de ordem.
(...) O amor - do lado de fora
(...) O amor - fora o perigo duma recaída.
(...) A vida - for o que der e vier.
(...) O amor - fora o que passou despercebido.
(...) A vida - fora o que a gente esqueceu
A morte - fora de cogitação.
O amor - fora o que nunca se diz a ninguém.
(...) O amor - fora as noites passadas em claro.
(...) O amor - fora o trabalho que dá.
(...) A vida - fora os erros de revisão.
(...) A vida - fora certas crises de neurastenia.
(...) O amor - fora o que ela/ele não disse.
(...) A vida - fora o que vem nas entrelinhas.
O amor - fora o que se perdeu.
A vida - fora o tempo que se passa dormindo.
O amor - fora o tempo que se passa dormindo.
(...) A vida - fora os emolumentos.
O amor - fora algum reajuste posterior.
(...) O amor - nove foras nada.
(...) O amor - fora o que aconteceu antes."

(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: A vida, a morte, o amor, o dinheiro. Ed. Civilização Brasileira, p. 237-238)

Fonte: Blog Vem Cá Luísa

DESEJO


Queria ser essa noite que te envolve; e 
cobrir-te com o peso obscuro dos braços 
que não se vêem. Um murmúrio 
desceria de uma vegetação de palavras, 
enrolando-se nos teus cabelos como 
secretas folhas de hera num horizonte 
de pálpebras. Deixarias que te olhasse 
o fundo dos olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos 
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

Nuno Júdice


domingo, 28 de outubro de 2012

...crime passional...

SILVESTRE E O IDIOMA

Silvestre quer saber

porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebaptizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.


MIA COUTO, in IDADES CIDADES DIVINDADES (Caminho, 2007)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Des-vão


E lá no fundo
Do meu mundo
Que só eu me dou
Que só eu sei
Tem você

Correndo por fora
Meio noite
Meio sol
e bossa nova
nesse absurdo-lento
descompasso das horas

profusão de cores
frescores matinais
amores tardios
uma paixão que aflora

todos os sentidos num só vão
toda espera em minha mão
e nada me cabe

não sei se sim
nem se não...
quem sabe?

AnaCris 

Poeminha lindo da poeta Ana Cristina Martins. Gostei muito! 

assim assim :)

‎


"Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto também".

Guimarães Rosa