Como decidir do desejo?
Algum padrão diz do que
e de quanto vive?
Ele vive do que deseja?
É uma necessidade?
Subsiste no fundo do tempo?
Faz-se num minuto? Morre
no outro? Perdura uma existência inteira?
O desejo que não desejamos,
refreá-lo como? Respiramos.
Há interromper-lhe o passo?
O desejo nos ouve?
É cego? É doido? O desejo vê
mais que tudo? São os nossos
os seus olhos? Se os fechamos,
ele finda? Quem pôs o desejo em nós?
Onde está posto? E onde não?
Penetra o sonho, o trabalho, infiltra
nos livros, no óbvio, nos óculos,
na cervical, na segunda-feira e os versos
não sabem outro tema.
Há quem não deseje?
Tudo o que vive deseja?
Faça-se o exercício: não desejar,
por um mês, uma semana,
um dia. O desejo fabrica-se
de nenhum aval? Ele não teme?
Não receia o sal à face da razão?
Não teme a dor, decerto, que dela
parece, por vezes, primo-irmão.
E perguntamos, perplexos. O desejo
é uma forma oblíqua de alegria? Brinca
conosco? Mas, brincarmos com ele,
ai de nós, é de seus truques
o mais fatal. Morremos de desejo?
Com ele removemos pedras?
Por ele removemos montanhas?
Pode o desejo mover o não?
(O não: esta seta o mata?
Ou esta farpa fomenta o que nele nos ultrapassa
e que, sem nome nem fim, não desistirá
senão quando tudo morto em nós?)
Química tão secreta,
não vale a pena qualquer pesquisa,
uma pluma, este poema.
EUCANAÃ FERRAZ
in Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
in Rua do mundo. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007.
"Não pense que eu ando atrás só de belas coisas simples. Eu quero qualquer coisa, desconexa, contraditória, insegura, não tem importância, desde que seja sua. As definições redondas e grandiloqüentes, as coisas categóricas e acabadas não me satisfazem, porque eu não sou assim", escreveu Maury Gurgel Valente para Clarice Lispector. Este blog traz excertos do cotidiano, poesias, devaneios sobre relacionamentos, cinema, literatura, música... Belas coisas simples, como eu, você e a vida.
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
é a poesia que nos move.
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
Eucanaã Ferraz
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
Eucanaã Ferraz
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
para ler, escutar e gostar
Você já leu a Revista Piauí? Eu nunca li a da banca, mas a da internet conheci outro dia e gostei bastante. Tá, eu não li muita coisa, mas me apaixonei por uma seção com poesias em áudio do Eucanaã Ferraz.
Para ouvir, acesse: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=363
As duas que mais gostei:
VINHETA
Ame-se o que é, como nós, efêmero. Todo o universo podia chamar-se: gérbera. Tudo, como a flor, pulsa e arde e apodrece. Sei, repito ensinamento já sabido e lições não dizem mais que margaridas e junquilhos. Lições, há quem diga, são inúteis, por mais belas. Melhor, porém, acrescento, se azuis, vermelhas, amarelas.
INTERVALO
É o que lhe digo: a medida. Quantos de nós entre nós se tantos os vazios a preencher entre querermos e a distância? A delicadeza dá dois passos. A vontade avança. A dúvida recua. Quantos de você entre você e Camus, entre você e a casa, entre você e quase, entre você e o nó que lentamente vai desatando entre você e nós? Há muitos entre nós: que somos, que não somos, que seríamos, entre a sua voz e ouvi-la entre a vertigem de tocar, por sobre o Saara, as mãos e o jardim que nelas se abre, agora que não há senão um sim e um sim, e temos sede, e rimos alto entre livros, arrebatamentos, amendoeiras e a impressão de que, sem deixar traço, todos desapareceram.
Poesias belíssimas. E em áudio soam ainda melhores.
Eucanaã é poeta, carioca, de 1961. Mais aqui: http://eucanaaferraz.com.br/
Para ouvir, acesse: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=363
As duas que mais gostei:
VINHETA
Ame-se o que é, como nós, efêmero. Todo o universo podia chamar-se: gérbera. Tudo, como a flor, pulsa e arde e apodrece. Sei, repito ensinamento já sabido e lições não dizem mais que margaridas e junquilhos. Lições, há quem diga, são inúteis, por mais belas. Melhor, porém, acrescento, se azuis, vermelhas, amarelas.
INTERVALO
É o que lhe digo: a medida. Quantos de nós entre nós se tantos os vazios a preencher entre querermos e a distância? A delicadeza dá dois passos. A vontade avança. A dúvida recua. Quantos de você entre você e Camus, entre você e a casa, entre você e quase, entre você e o nó que lentamente vai desatando entre você e nós? Há muitos entre nós: que somos, que não somos, que seríamos, entre a sua voz e ouvi-la entre a vertigem de tocar, por sobre o Saara, as mãos e o jardim que nelas se abre, agora que não há senão um sim e um sim, e temos sede, e rimos alto entre livros, arrebatamentos, amendoeiras e a impressão de que, sem deixar traço, todos desapareceram.
Poesias belíssimas. E em áudio soam ainda melhores.
Eucanaã é poeta, carioca, de 1961. Mais aqui: http://eucanaaferraz.com.br/
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